Casal numa sala reabilitada no Porto, com parede de granito à vista, tecto de estuque trabalhado e parquet original
Viver no Porto

Viver em Massarelos

Massarelos não se percebe num mapa. Percebe-se a descer. A zona organiza-se numa encosta que cai da cota alta da cidade até à margem do Douro, e essa inclinação explica quase tudo: porque é que há tantos miradouros, porque é que as ruas são estreitas e os quarteirões irregulares, porque é que a central eléctrica da cidade foi construída cá em baixo e os jardins românticos lá em cima.

Administrativamente, faz parte da União das Freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos. Na prática, é o troço do Porto onde a cidade e o rio ainda se tocam sem intermediários.

Este artigo descreve o que existe aqui com nomes, datas e números. Horários e preços mudam por época e devem ser confirmados nas fontes oficiais de cada local.

Onde fica Massarelos e o que a distingue das outras zonas do Porto?

Massarelos fica entre o centro histórico e a foz, na margem norte do Douro, e distingue-se por ser uma encosta habitada: o desnível entre a cota alta e a marginal faz com que quase todas as ruas tenham vista sobre o rio em algum ponto do percurso.

É também uma das poucas zonas centrais do Porto onde convivem, no mesmo quilómetro, património industrial em funcionamento, jardins do século XIX classificados e uma linha de eléctrico com serviço regular. Não é um bairro reconstruído para turistas nem uma zona residencial nova: é tecido antigo que continua a ser usado.

Porque é que há um museu de eléctricos em Massarelos?

Porque o edifício onde ele está foi a central que alimentava os eléctricos de toda a cidade.

A Central Termoeléctrica de Massarelos foi construída em 1915, com projecto do arquitecto Luís Couto dos Santos, para produzir e transformar a energia necessária ao funcionamento da rede de carros eléctricos do Porto. Deixou de fazer sentido como produtora em 1955, quando o fornecimento passou a vir da União Eléctrica, e o edifício ficou parcialmente desactivado a partir dos anos 60.

O Museu do Carro Eléctrico abriu ali a 18 de Maio de 1992, por iniciativa de um grupo de entusiastas, e pertence à Sociedade de Transportes Colectivos do Porto. O acervo reúne 16 carros eléctricos, 5 carros atrelados e 2 automóveis de apoio, além de bilhética, uniformes e arquivo fotográfico. Aderiu à Rede Portuguesa de Museus em 2001.

Há um pormenor que vale a visita mesmo a quem não se interessa por transportes: em 2015, depois de um trabalho de estabilização e restauro, a Sala das Máquinas da antiga central abriu ao público pela primeira vez. É arquitectura industrial do início do século XX no seu estado original, à beira do rio, e não uma reconstituição.

Fica na Alameda de Basílio Teles, 51 — a poucos minutos a pé da Rua da Pena, descendo a encosta.

O eléctrico 1 serve para viver ou é só para turistas?

Serve para as duas coisas, e é essa a diferença em relação a um eléctrico de cartão-postal.

A linha 1 liga o Infante ao Passeio Alegre, percorre sempre a marginal do rio e passa junto ao Museu do Carro Eléctrico. Tem 13 paragens e o percurso completo faz-se em cerca de 20 a 23 minutos. É a linha mais longa da rede de eléctrico antigo do Porto, e as assinaturas Andante com o zonamento devido são válidas a bordo — não é um circuito turístico com bilhete próprio obrigatório.

Na prática, quem vive na encosta usa-a para descer à Ribeira ou subir à Foz sem carro. A desvantagem é conhecida: nas horas de maior procura, e sobretudo à partida do Infante, os carros vão cheios. Quem apanha o eléctrico a meio do percurso, em Massarelos, encontra menos lugar do que quem entra na ponta.

A linha 18 parte do próprio Museu do Carro Eléctrico e sobe até ao Carmo, fazendo a ligação entre a cota baixa e a cota alta da cidade.

O que resta do Palácio de Cristal?

Os jardins. O palácio foi demolido em 1951.

Vale a pena saber a história, porque explica um mal-entendido comum. O Palácio de Cristal Portuense começou a ser construído em 1861, no antigo campo da Torre da Marca, e foi inaugurado a 18 de Setembro de 1865 pelo rei D. Luís, para receber a Exposição Internacional do Porto. Tinha projecto do arquitecto inglês Thomas Dillen Jones, era feito de granito, ferro e vidro, media 150 metros de comprimento por cerca de 72 de largura e dividia-se em três naves. O modelo foi o Crystal Palace de Londres.

Os custos de manutenção afundaram-no. A Câmara do Porto adquiriu o espaço em 1933 e, em 1951, mandou demolir o edifício para construir o Pavilhão dos Desportos, com projecto do arquitecto José Carlos Loureiro, a tempo do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins de 1952. É o pavilhão de cúpula que hoje se chama Pavilhão Rosa Mota, integrado na Super Bock Arena e reaberto em 2019 depois de uma reabilitação profunda.

O que sobreviveu foram os jardins românticos, projectados na década de 1860 pelo paisagista alemão Émile David. Combinam áreas formais com zonas de bosque e vários miradouros sobre o Douro, Vila Nova de Gaia e a Ponte da Arrábida. As fontes divergem quanto à área total, entre oito e onze hectares, consoante se conte apenas o jardim histórico ou todo o recinto.

Vale a pena viver junto ao Jardim Botânico?

Depende de se valorizar um jardim de entrada livre a menos de um quilómetro de casa — e este é dos poucos do país com camada literária por cima da botânica.

O Jardim Botânico do Porto ocupa mais de quatro hectares na antiga Quinta do Campo Alegre, com traçado delineado em finais do século XIX. A casa que o domina é a Casa Andresen, um palacete começado depois de 1875 por João da Silva Monteiro, emigrante regressado do Brasil. De 1895 até à década de 1930 foi a casa dos avós de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Ruben A., que ali passaram grande parte da infância — e que a fizeram reviver na obra, sobretudo em O Rapaz de Bronze e A Floresta.

Os Andresen venderam a quinta em 1949. O jardim botânico instalou-se pouco depois e, desde 2015, integra o Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto. Na Casa Andresen funciona hoje a Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva. Fica na Rua do Campo Alegre, 1191.

Como é a vida de bairro numa encosta?

Diferente de viver em plano, e vale a pena saber isso antes de comprar.

O lado favorável: as ruas em declive filtram o trânsito de atravessamento, os quarteirões são pequenos, e o comércio de proximidade sobrevive melhor onde as pessoas circulam a pé. O Mercado do Bom Sucesso, a cerca de um quilómetro, funciona como âncora de restauração e mercearia para toda a encosta.

O lado a pesar: subir de volta a casa com compras é real, e nos dias de chuva a calçada em pendente exige cuidado. Quem vem de uma cidade plana costuma subestimar este ponto. Quem já viveu no Porto, não.

A que distância fica tudo, a partir da Rua da Pena?

O Palacete Douro fica na Rua da Pena, 193, na encosta que desce ao Douro. Tudo o que este artigo descreve está dentro de um quilómetro.

Destino Distância em linha recta A pé
Museu do Carro Eléctrico ~0,3 km 5 min
Jardins do Palácio de Cristal ~0,65 km 10 min
Jardim Botânico do Porto ~0,95 km 14 min

Vale a pena comprar apartamento com vista para o rio no Porto?

Aqui há uma distinção que muda o negócio: vista para o rio e proximidade ao rio não são a mesma coisa, e em Massarelos podem estar a cotas diferentes.

A vista depende da altura a que se está na encosta e do que está construído à frente. Um andar a meia encosta pode ter vista aberta e ficar a dez minutos de subida do eléctrico; um andar junto à marginal fica ao lado do rio e pode não o ver de dentro de casa. Antes de comprar, vale a pena ir ao local à hora a que se costuma estar em casa e olhar pela janela — não pela planta.

O argumento estrutural a favor da zona é que a encosta limita a densificação. Não há aqui terreno plano para grandes empreendimentos novos, e boa parte do que existe é tecido antigo em malha consolidada. Isso protege as vistas existentes melhor do que qualquer promessa comercial.

O Palacete Douro tem 14 residências na Rua da Pena, 193, na encosta de Massarelos, a poucos minutos a pé do Museu do Carro Eléctrico e dos Jardins do Palácio de Cristal.